Se algum dia, por algum toque de mágica a minha história tiver de ser relatada, lembrem-se que eu gosto da abertura d’ “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” do Jean-Pierre Jeunet assim como deste vídeo, muito bom, de John Baldessari. E chamem a Carmen do Bizet a fazer pandam com o William Teller de Rossini.
«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e… a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, (…) privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»
A propósito da notícia no Sapo Notícias - Preço da luz pode aumentar a cada três meses - fui procurar informações quanto aos fornecedores de energia no novo mercado liberalizado português. Quantos há? 6, SEIS!
Sendo que apenas a EDP e a Endesa apresentam tabelas com valores a praticar. Os restantes não apresentam qualquer valor e têm os seus sítios na língua mãe, espanhol.
Portanto, a partir de 1 de Julho deste ano dá-se início à fase final da liberalização do mercado de electricidade, e a ERSE pretende agravar a tarifa aos consumidores que não tenham mudado para as novas tarifas e/ou comercializadores. Ou seja, quem nada fizer vai pagar mais no final do mês.
Até à data estas foram as tarifas encontradas [27/Março/2012]
O seguinte é um mero exercício de escrita, de ouvir conversas, de juntar palavras, de criar um personagem.
Iracema era índia quando tinha tempo. No restante era antropóloga, estudava os cavalos e os seus imperiais. Detestava colonizadores e maracujá. Quando não tinha sementes comia mandioca. Ticotico era o seu nome de guerra, mas de paz era o seu espírito. Morava em Montevidéu. Pela pele sabia distinguir todas as macaxeiras do reino. Não era esquisita na forma de viver. Detestava pegar vermes e só tomava banho de cachoeira.
É conhecido e sabido a proliferação de rotundas pelas nossas cidades. E noto, pelas poucas viagens que fiz, que quanto mais pequena é essa cidade mais rotundas tem. Acho que é a forma camarária de se mostrar obra feita: a(s) rotunda(s), que não raras vezes expõe uma arte abstracta e indecifrável do autor local de quem nunca ninguém ouviu falar.
O problema
Não se trata do número de rotundas por quilómetro quadrado, mas desse número em más rotundas construídas. Culpados não os há, mas todo um povo com o seu excesso de regras para tudo. E se para tudo há uma regra, também há a excepção a essa regra e a alínea que corrige a alínea dessa excepção. A meu ver dever-se-ia seguir o mesmo modelo de rotunda por forma a minimizar os erros de condução. Veja-se o caso da rotunda furada.
A rotunda furada
Repare-se no excesso de cedência introduzido pela passagem de duas vias pelo centro da rotunda, é a excepção à cedência geral de quem vai dentro das rotundas. Se o propósito das rotundas é o de fazer fluir trânsito, nesta, com semáforos a coisa só vai andar mais devagar.
Eu sou apologista de que o número de vias de entrada deve ser o mesmo do de saídas. Assim evitam-se as excepções às regras de cedência. Quem regula e normaliza a rede rodoviária nacional neste momento é o InIR, que deveria homogeneizar o traçado das rotundas. Assim evita-se que quem vai construir, saiba de antemão que a falta de terreno para mais uma via, seja a desculpa para por entradas e saídas em número diferente. E que quem ensina se paute pela mesma regra.
O meu ódio de estimação
Pessoas que conduzem sempre pela faixa exterior da rotunda independentemente da saída que vão tomar.
A ficha técnica do IMTT, Circulação em Rotundas, prevê que se se pretender sair na 1ª saída ou na 2ª (numa rotunda pequena) deve aproximar-se e entrar pela via da direita; se, por outro lado, pretende circular mais de metade da rotunda então deve entrar pela via da esquerda.
Rotunda - regra
O carro verde! É aqui que eu me chateio com a regra recentemente alterada. Eu aprendi que, e faz todo o sentido no que respeita a fazer fluir o trânsito, a primeira entrada é sempre para a primeira saída, as entradas restantes para as restantes saída. E porquê? Porque assim evita-se o conflito entre os carros verdes A e B.
Somos mal-educados e invejosos
E se as rotundas existentes não fossem suficientes para os tão maus condutores que somos, vamos importar uma ideia nascida em 1996 na Holanda, a Turbo-rotunda. De um modo simples é isto:
A turbo-rotunda
Mas na verdade, é mais isto:
Turbo-rotunda em Doenkade – LINK directo para o Google Maps
Coimbra será a primeira cidade portuguesa a receber esta turbo-rotunda que vai permitir, dizem, um aumento considerável da sua capacidade em fluir trânsito, segurança rodoviária e conforto. O que isto traz de novo? A existência de circuitos pré-delimitados que evitam pontos de conflito dentro da rotunda.
Isto é uma forma de se corrigir o erro, mas sem corrigir nada. Ao invés de se educar a condução, colocam-se umas palas aos cavalos para eles não olharem para os lados, é seguir em frente.
A infografia – vejam
Turbo rotunda – LINK directo para a infografia
Por fim, termino com uma frase, muito portuguesa face à novidade, do vereador da Câmara Municipal de Coimbra, Paulo Leitão, a respeito deste novo projecto:
se não está prevista no código da estrada é porque não é proibida
Quando o governo se põe a espirrar ideias de energia nuclear para Portugal penso sempre no acidente nuclear de Chernobyl, talvez por ter sido naquele mês de Abril de ’86, talvez por ser o maior, até hoje, acidente nuclear a que o mundo assistiu. Talvez por ser essa uma ideia parva e imponderada duma energia que se diz mais barata.
26 anos depois, o maior receio das mulheres que nasceram por aquela altura e que hoje são mães, é o de que os seus filhos não tragam rescíquios de efeitos radiotativos.
Anseiam, 26 anos depois!
[FOTO de Gerd Ludwig/INSTITUTE, Bielorrússia, 2005]
À data de começo de escrita deste artigo eu pensava: esta é uma teoria da conspiração. Hoje, estou mais certo que tudo isto é uma treta pegada.
Vá, eu sei que já todos viram o vídeo que mais rapidamente alcançou o estatuto de viralidade em toda a história da internet livre tal qual a conhecemos. Sim, estou a falar do Kony 2012 criado pela ONG Invisible Children. Resumidamente é um vídeo, um grande vídeo, que exige 30 minutos da nossa atenção para dizer uma coisa: Joseph Kony é o mau da fita, cacem-no!
A teoria da conspiração
Eu tenho este problema de que há sempre uma teoria subversiva e conspiradora de grandes corporações e interesses governamentais e economicistas por trás destas causas, destes movimentos que surgem do nada. A teoria de que já vêem sendo preparados há muito, que não são tão amigos do próximo e que só nos querem extorquir dinheiro à custa do nosso elo mais fraco: o sentimento de culpa. Ajudar as criancinhas com fome, escravizadas e prostituídas, reportagem que passa à hora do jantar. Nada melhor que sanar o meu sentimento de incapacidade e culpa dando dinheiro, enviando livros e medicamentos, apoiando a causa das organizações [há organizações e organizações, mas lá está, esta é a minha teoria conspirativa]. E assim liberto os meus pecados mudando para a FOXlife.
Eu sou mais kony que tu
Querem saber mais de Joseph Kony? Wikipedia helps you! Mas em jeito de tópico fica aqui:
Kony é mau? Sim
Kony matou milhares de pessoas e fez das crianças soldados? Sim
Kony ainda tem exército e poder de acção? Sim, reduzidíssimo.
Kony ainda é um perigo para o Uganda? Não mais que o interesse no petróleo recentemente descoberto lá.
Heritage Oil, Tullow Oil, Tower Oil e Dominion Oil o que têm em comum para além da palavra Oil? Tudo. Oil, petróleo.
Esta história do petróleo no Uganda já vem de 2006 quando se previa uma extração, assim em números altos, de 3,5M barris/dia. No site da própria Tullow Oil, uma das exploradoras, é dito que esta espera uma extração de 2,5M barris petróleo. Só dela e só numa das zonas exploradas. Portanto, o Uganda é o segredo mais bem guardado de reservas de petróleo, pelo menos até então.
Afinal, onde fica o Uganda?
O Uganda é o segredo mais bem guardado de reservas de petróleo
Fazer negaças
[negaça - seduzir, provocar] Às crianças fazem-se negaças com doces, aos Estados Unidos com petróleo. E quando não lhes dão o “doce” avançam com tropas e desculpas dos atentados aos direitos humanos, das bombas nucleares, do atentado à liberdade dos países ocidentais. No fundo, os americanos têm a mania da perseguição e estão viciados.
“Uganda has oil”
Tudo isto é uma treta pegada
Verdade: As ONG precisam sugar dinheiro às pessoas!
Quanto dinheiro? Para a Invisible Children $13.7M, só em 2011. E relatórios da própria indicam que desse dinheiro 68% das doações são para financiamento de viagens, propaganda, burocracia e vídeos e apenas os restantes 32% para ajuda no terreno.
Verdade: o vídeo, KONY 2012 mostrado aos locais de Lira, localidade no norte do Uganda onde Joseph Kony fez mais vítimas, teve reacções de revolta, ódio e asco à organização. Sentiram-se, no mínimo, usados.
Então como é que ficamos?
O vídeo retrata acontecimentos e episódios que ocorreram há mais de 10 anos no Uganda. Acho que seria o mesmo que passar imagens do cemitério de Santa Cruz em Timor e dizer que se quer dinheiro para acabar com os problemas das crianças timorenses.
Doar dinheiro à Invisible Children? Só se for para eles fazerem mais um vídeo super-mega-produzido com factos desactualizados.
Não tem mal nenhum em sensibilizar e mobilizar as pessoas para um problema, o mal está em nós que não procuramos saber a verdade, o que realmente está acontecendo. É tão mais fácil ficar no sofá a ver televisão e telefonar para o 707 e ajudar as criancinhas mais IVA.
O Uganda hoje tem problemas bem mais graves que com o rebelde Joseph Kony, que em todo o caso, não está ilibado dos crimes cometidos e que por esses mesmos crimes deve ser julgado.
Todos nós sabemos que os Estados Unidos vão, mais tarde ou mais cedo, meter o bedelho com “ajuda humanitária”. O Uganda é um país que vai pagar as suas dívidas de guerras e de longos anos de economia inexistente durante muito tempo à custa do seu mais recente potencial descoberto, o petróleo. Vai pagar e não vai chegar. O FMI tem “juros” altos.
Termino com uma frase da jornalista ugandense Rosebell Kagumire a propósito deste vírus cibernético, o KONY 2012:
é mais um vídeo no qual vejo um estrangeiro tentando ser um herói que salva crianças africanas